Com muito custo chegou à terra de Tio Sam. Na mala, o sonho de multiplicar o único dólar que trazia no bolso. Meses após, o que ganhava era apenas para o sustento. Virou do lar.
Os primeiros pingos começavam a cair. De tão espessos, pareciam martelar o solo. Em pouco tempo a enxurrada varreu tudo. Em meio ao lamaçal, uma senhora que aparentava ter a vivência de mais de meio século, elevava seus braços de fartas carnes ao céu e, de olhos cheios d’água, agradecia a Deus por ter salvo um pouco do pouco que tinha. Não se deu conta de que a chuva viera do céu.
Em meio aos compactos arbustos verde-musgo, destacava-se apenas uma rosa vermelha. Arrancaram-na brutalmente. Na palma da mão, mais parecia um coração palpitante. Um punho cerrado impeliu contra ela toda a sua força. Sangue correu pelo vão dos dedos. Não atentara para os espinhos.
De mãos atadas e olhos tapados pela mão de seu próprio pai, Isaac ouviu uma voz:
- Não estenda a mão sobre o teu filho e a ele não faça mal algum.
Viu o pai prestes a desferir-lhe um golpe de punhal. Perdoou-o, mas não pode mais amá-lo. Sempre pensara que o amor do pai era incondicional.
Deus sentiu-se culpado, mas transferiu a culpa a Abraão.
Cristão fervoroso, sempre sonhara em ver a Capela Sixtina de perto. Não poupou esforços. Após anos de economia, foi ao Vaticano. Ao contemplá-la, desconverteu-se. Viu Deus de cabelos e barba grisalhos. Os traços vincados. O próprio Deus, combalido pelo tempo.
Quando jovem, atéia destemida. Após inúmeros louvores à vida, foi-se o vigor. Em seu lugar, um buraco que a fé logo tratou de tapar. Aprendeu todas as rezas e, de terço em mãos, entrou na terceira idade.
Jesus terminava sua jornada. Quarenta dias e quarenta noites no deserto. O Diabo apiedou-se e ofereceu-lhe um pedaço de pão. Atônito, Jesus respondeu:
- Ando a caminhar por estas paragens há dias e é pão que me ofereces? Nem só de pão de vive o homem.
O Diabo virou de costas e foi-se embora.
Vendeu tudo o que tinha. Até mesmo o par de alianças. Doou à igreja, na esperança de ver o marido curado. Meses depois, faleceu. O pastor confortou-a.
- Ele está na glória de Deus... Essa era a vontade Dele... Somos pequenos demais para entender Seus desígnios... Foi um homem muito distinto, sua generosidade não era deste mundo...
Alta madrugada. O Papa acorda com o coração na boca. Tivera um pesadelo no qual era Deus. Senta-se à beira do leito, limpa o suor da fronte, o peito arfando. A sua frente, um espelho... Olha, vê Deus.
Sempre repugnou a ciência e exaltou a fé. Adoeceu, não foi à igreja, mas ao médico. Antes de dormir, rogava a Deus para que abençoasse aqueles comprimidos. Deus, ressentido, não lhe deu ouvidos.